Biogás: vantagens ambientais e energéticas

As regiões oeste dos estados de Santa Catarina e Paraná constituíram-se como produtoras intensivas de pecuária, sobretudo de suínos e aves. No primeiro, há mais porcos que gente: são seis milhões de habitantes contra sete milhões de suínos, sendo que estes produzem cada um cerca de 4,5 litros de dejetos por dia. Diante da grandeza do passivo ambiental, grandes empresas de energia estão tomando a dianteira e buscando encontrar a solução no próprio problema.

 

Entre os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, a Eletrobrás/ Eletrosul está desenvolvendo um piloto em produção e consumo sustentável de energia elétrica: é o Projeto Alto Uruguai, que envolve 29 municípios ribeirinhos da bacia hidrográfica do Rio Uruguai. Além de integrar as localidades, todos com criação intensiva de suínos e aves e com organizações sociais estabelecidas, essas eram localidades com elevados índices de exclusão energética. Muitas famílias viviam sob a rede de transmissão da Eletrosul e não tinham acesso à eletricidade. Assim, o Projeto nasceu com o intuito de utilizar novas fontes de energia alternativa e geração distribuída, permitindo o acesso e a conservação da energia elétrica. "Foi feito um trabalho de capacitação de professores e agentes comunitários para posteriormente, elaborar Planos Municipais de Gestão Energética. Com a consciência de que é preciso preservar, ficou mais fácil trabalhar com o uso de novas fontes, como o biogás e os coletores solares para aquecimento de água", explica Sadi Baron, coordenador do Alto Uruguai. Só com os 35 biodigestores rurais instalados o projeto pode alcançar uma produção anual e 605.952 m3/ano de biogás, suficientes para gerar 984.672 kWh/ano de eletricidade.

 

A nova fase do Alto Uruguai agora é a criação de um condomínio agroenergético que está sendo instalado na comunidade de Santa Fé Baixo, no município de Itapiranga (divisa com Argentina, às margens do Rio Uruguai). Farão parte desse condomínio dez unidades produtoras, que juntas somam um rebanho de quase cinco mil suínos e que podem produzir anualmente 160.370 m3 de gás metano. "O uso do biogás como combustível em um gerador, resultará em 260.601 KWh/ano de energia elétrica e reduzirá 1.043 toneladas de gás carbônico por ano", completa Baron. O projeto básico está sendo concluído e a expectativa da Eletrobrás/ Eletrosul é de que a unidade entre em operação no início de 2011, cuja energia deverá ser inserida na rede da Celesc, empresa distribuidora que atua na região. Até o momento, já foram investidos nesse projeto R$ 3,6 milhões e só para a unidade de Itapiranga, são R$ 640 mil.

 

Esse protótipo evidenciará um imenso potencial energético em Santa Catarina. Recente estudo realizado em parceria pelo Departamento de Engenharia Sanitária da UFSC e a Companhia de Gás de Santa Catarina, mostrou que há uma riqueza ainda a ser explorada no metano produzido a partir dos dejetos animais, esgotos sanitários, resíduos sólidos urbanos e efluentes industriais. Com essa iniciativa, Santa Catarina tornou-se o primeiro estado a desenvolver um inventário de biogás que deverá orientar projetos e investimentos.

 

"Como o estado tem apenas 10% de cobertura de rede de esgoto, essa é uma fonte de produção de metano. Entretanto, a matéria primai mais importante, pelo volume, são os dejetos de aves, suínos e bovinos, que somam um potencial de quase 2,5 milhões de m3 de gás metano diariamente. Para se ter uma idéia do que isso representa, hoje Santa Catarina compra da Bolívia, através da SC-Gás, 1,5 milhão de m3 de gás por dia", explica um dos coordenadores do projeto, o professor e engenheiro sanitarista Paulo Belli Filho. Segundo o inventário, com uma população de 5,5 milhões de habitantes, SC pode gerar cerca de 65 mil m3/dia de metano só a partir de esgotos urbanos. Já com resíduos sólidos urbanos, o volume poderá chegar a 380 m3/dia do gás.

 

O estudo fez ainda um levantamento da geração de gás com efluentes industriais de 135 fábricas (papel e celulose, alimentos, conservas, bebidas e agroindústrias). "Mesmo tendo sido um número limitado de empresas, o resultado foi de 76 mil m3/dia de gás metano. Ou seja, a soma de todos esses volumes nos leva a quase três milhões de metros cúbicos do gás diariamente e isso não pode ser desprezado", conclui Belli. Para se ter uma idéia, com o volume de metano produzido no estado, a população equivalente à da Grande Florianópolis (cerca de um milhão de pessoas) poderia consumir a eletricidade vinda do biogás. Na opinião do especialista, esse potencial deve ser aproveitado em projetos que contemplem a inclusão social e não apenas com grandes contratos de crédito de carbono, que vem sendo a tendência mundial.

Veja matéria completa publicada originalmente na Revista Primeiro Plano n°18, que trata ainda do potencial energético dos aterros sanitários urbanos.

Texto: Alessandra Mathyas